IV - "Poc"


Amanheceu.

Martim e seu pai, Zé Martim Sénior, foram os primeiros da aldeia acordar. Vestiram as indumentárias fúnebres e dirigiram-se a casa da família Galhão. Lá tratariam dos últimos preparativos e ficariam à espera da família do defunto, dos restantes habitantes e do padre da aldeia, o Zé Tó.

Quando os cangalheiros entraram na sala de estar da família Galhão, nada neste mundo os poderia ter preparado para o que encontraram, mas já lá vamos.

Igor acabara de colocar os estribos no cavalo. Tinha de ir à aldeia procurar por Jessica, tal como o seu mestre lhe ordenara. Escancarou as portas do estábulo e subiu rapidamente à carroça. O pobre cavalo, mal sentiu Igor atrás dele, saiu desesperado a correr sem ser preciso chicoteá-lo. Igor já estava habituado a este comportamento e como iam em direcção à aldeia, era o que interessava.

Martim pai e Martim filho contemplavam estupefactos aquele horror; o corpo de Fonseca pregado ao caixão, a poça de sangue no chão que tinha escorrido por um fio na estaca e a cabeça do pobre defunto com a boca aberta espetada na metade do candeeiro:

- Pai, o que é isto?

- Raios me partam, filho…


Como sabemos, Martim filho começara há pouco no negócio; foi algo que nunca lhe agradou, mas que suportava para ter o dinheiro para se casar com Jessica. Contudo, por muito que lhe custasse mexer em corpos, aquilo era algo muito pior do que alguma vez tinha visto. Começou a sentir-se mal:

- Pai, o que é isto? – Insistiu.

- Meu filho, nem quero proferir as palavras.

- Como assim, Pai, sabes o que isto significa?

- Isso agora não interessa, filho. Temos de limpar esta confusão, acredita em mim. Não podemos permitir que a Jessica e a Dona Francisca vejam este… terror.

- Mas, Pai…

- Raios, Martim! Faz o que te digo! Depois falamos!

- Mas faço o quê?

- Pega na cabeça do Fonseca e mete-a dentro do caixão! Eu vou tirar esta estaca daqui e tapar a mancha de sangue com um tapete qualquer. Vá, depressa!

Depressa… Era fácil de dizer. Enquanto o pai se despachava nas suas tarefas, Martim Júnior contemplava enojado a fava que lhe calhara.
Com muito jeitinho, e muito nojo, começou a tentar tirar do espeto a cabeça careca de Fonseca. Martim estava horrorizado, enojado, nervoso. As suas mãos suavam e não tinham qualquer aderência na careca do pobre do seu futuro sogro; por mais que puxasse, as mãos escorregavam até se juntarem no alto da decepada pinha.

Martim Sénior, que já tinha retirado a estaca do caixão e procurava por um tapete, interpelou-o:

- Ó Martim? Mas tás parvo? Pára lá de bater palmas e faz o que te mandei!

- Ó Pai, não estás a ajudar nada!

Martim Júnior chegou à conclusão que tinha de puxar pelas orelhas do Fonseca para levar a cabo a tarefa. Puxem vocês pela vossa cabeça para perceberem a ideia completa.

Quando finalmente retirou a cabeça do espeto, ouviu-se um “poc”, como uma rolha a sair da garrafa. Martim Júnior começava a entrar em desespero, era de mais.
Com os braços na horizontal, com a cabeça do pobre Fonseca o mais afastada possível, Martim finalmente chegou ao caixão; ia a medir os passos porque tinha fechado os olhos.
Infelizmente, abriu-os para pousar o crâneo. Foi demais para ele; não conseguiu conter-se e vomitou o pequeno-almoço por cima do cadáver.

III – Filho único de outro deus



Os habitantes presentes no velório regressaram a suas casas. A Dona Francisca e Jessica foram pernoitar na casa da irmã da Dona Francisca, a Dona Alípia Tomás Tesmurchos.

À semelhança da irmã, a Dona Alípia também se tinha casado com um presidente da câmara, cujo mandato terminara há 4 anos; o Honorável Doutor Antunes Tomás Tesmurchos, infelizmente já falecido e o último da sua linhagem; ao contrário de Francisca e Fonseca, a família Tomás Tesmurchos não teve qualquer filho, o que constituía o único desgosto de Alípia no seu casamento com Antunes.

Alípia nunca percebeu porquê e tornou-se numa pessoa triste e deprimida, culpando-se a si própria pelo fracasso perante o marido. Mas era uma pessoa muito carinhosa e adorava Francisca, sendo mais do que uma tia para Jessica. Amava-a perdidamente e tratava-a como se fosse filha dela.

Drácula ignorava todos estes factos. Nessa noite, voou até à casa de Jessica e aterrou suavemente no telhado. Com a agilidade de um animal selvagem, aproximou-se da janela do quarto de Jessica; pendurado de cabeça para baixo, espreitou.
Nada. Nem sinal da formosa criatura, mas Drácula não desistiu. Silenciosamente, forçou o trinco da janela e entrou no quarto.
Ainda nada. Drácula espreitou por baixo da cama e dentro do armário, por descargo de consciência, mas nada. Pensou que Jessica teria ido à casa de banho, mas mudou de ideias quando viu a vela apagada na mesa de cabeceira; certamente que não se levantaria sem acender a vela e levá-la com ela.

Drácula NUNCA desiste.

Lentamente, abriu a porta do quarto e começou a percorrer o corredor do 1º andar. Espreitou à fechadura do quarto de Fonseca e Francisca, mas nada. Repetiu o gesto no quarto de hóspedes, mas nada. O mesmo na casa de banho.

Mas Drácula… não conhece a palavra DESISTIR.

Sem fazer ruído, desceu as escadas; procurou na cozinha, na sala de jantar e no escritório; em vão.
Faltava a sala de estar. A sala onde estava o corpo de Fonseca. Ao aproximar-se, reparou na luz trémula por baixo da porta; imaginou que a família Galhão estivesse reunida numa sessão de leitura, pelo que abriu um pouco da porta para se poder certificar.
Como não viu ninguém, entrou na sala.

Quando finalmente encarou com o corpo de Fonseca dentro do caixão, recuou rapidamente e encostou-se de costas à parede. Visivelmente alterado e sem tirar os olhos do caixão, saiu do quarto às arrecuas sem fazer qualquer ruído.

Drácula NUNCA se detém.

Rapidamente foi à arrecadação, onde partiu um candeeiro de pé alto ao meio e de onde retirou um machado de lenha; munido dessas três peças, voltou a entrar lentamente na sala de estar, detendo-se perto do caixão.
Poisou o machado e a base do candeeiro no chão, erguendo ao alto e na vertical a outra metade do candeeiro; apontou-a ao coração do defunto.
De súbito, gritou:

- SATANÁS TEM SÓ UM FILHO E SOU EU QUEM LHE ESCOLHE OS NETOS!

E ao proferir estas palavras, enterrou violentamente a estaca no coração frio e morto de Fonseca.

- MORRE, BASTARDO!

Empurrou a estaca mais para dentro com um golpe violento.

- MORRE, IMUNDO!

Voltou a golpear Fonseca, desta vez com tanta força que a estaca trespassou o corpo e o caixão. Deixando a estaca naquela posição, pegou de imediato no machado e elevando-o ao alto, com um só golpe cortou a cabeça do defunto gritando:

- EU SOU VLAD, O EMPALADOR! ESPERA-TE A HORRÍVEL ETERNIDADE JUNTO DE SATANÁS, MEU PAI, QUE DE TI NÃO TERÁ PERDÃO.

Pegou na cabeça decepada e espetou-a na base do candeeiro; deslizou escadas acima e saiu a voar pela janela do quarto de Jessica.
O sol estava prestes a nascer. Drácula apressou-se a regressar ao castelo, fortemente determinado a resolver o mistério com que se deparara e a descobrir o paradeiro de Jessica.

Ao chegar, encontra Igor no estábulo:

- Igor, algo correu mal.

- Ããããããããh! Ããããããããh! Ããããããããh!

- Não encontrei a Jessica.

- Ããããããããh! Ããããããããh!

- O pior é que dei de caras com outro vampiro. Como pode haver nestas paragens um vampiro que não tenha sido criado por mim?

- Ãh! Ããããh! Ãh! Ãhã! Ãhã! Ãhã!

- Mas não me deixei ficar, matei-o ali mesmo, no seu caixão. O bastardo.

- Ããããh! Ããããh! Ããããh! Ããããh!

- Tenho de tirar isto a limpo, Igor, algo se passa que não está sob o meu controlo. Preciso de saber o que raio se passa.

- Ãhf! Ãhf! Ãhf! Ãhf! Ãhf! Ãhf! Ãhf!

- Mas por agora, só a Jessica me interessa. Por isso, preciso que faças algo por mim, meu fiel servidor.

-Ãhã! Ãhã! Ãhã! Ãhã! Ãhã! Ãhã! Ãhã!

- Amanhã de manhã vais na charrete para a aldeia, e só sais de lá quando vires a a Jessica e descobrires onde vai dormir.

- Ãh! Ãh! Ãh! Ãh! Ãh! Ãh! Ãh!

- Espero poder contar contigo, Igor, se não…

-Ãnhã! Ãnhã! Ãnhã! Ãnhã! Ãnhã! Ãnhã!

- Limpaste o pó, como te disse?

- Ãh! Ãh! Ãh! Ãh! Ãh! Ãh! Ãh! Ãh!

- Óptimo. Bom, vou-me deitar. Pára de violar o cavalo e veste as calças,
já não suporto ouvi-lo a relinchar.

II – Morte


Jessica era a única filha do presidente da câmara da Transilvânia. Era uma jovem esbelta e belíssima, com pele cor de leite e cabelos de cachos dourados; os seus grandes olhos verdes realçavam as faces rosadas. Estava apaixonada por Zé Martim, o filho mais novo do cangalheiro da aldeia, que começara há pouco a seguir os passos do pai no negócio; Martim também a amava e planeavam casar-se, assim que se estabelecesse na vida.
Nessa noite, Jessica chorava; Drácula não sabia, mas o pai de Jessica tinha morrido nessa tarde. Jessica e a mãe, a Dona Francisca, choravam desconsoladamente junto ao caixão aberto na sala de estar da mansão da família, enquanto Martim tentava consolar as duas; todos os habitantes da aldeia (cerca de trinta) assistiam ao velório:

- Ai, o meu rico marido!
- Oh, mãe!
- Ai, que era tão bonzinho!
- Mãe!
- Ai, que será agora da minha vida!
- Mãezinha!
- Ai…

Martim interrompeu-as, tentando consolá-las:

- Dona Francisca, Amorzinho, o Dr. Galhão foi para um sítio melhor,
está junto de Deus.

A Dona Francisca Galhão irrompe novamente num pranto:

- Ai, o meu rico Fonseca!
- Mamã!
- Jessica!

I – No Castelo Do Mal

Drácula erguera-se do seu caixão.
Contemplava a noite escura e fria através da única e pequena janela da sua cela; Igor, o seu criado corcunda e desdentado, contemplava-o com a admiração com que os mortais adoram um deus. Drácula era o seu deus, era o que Igor mais admirava. Na verdade, Drácula também lhe enfiava uma carga de porrada de vez em quando, pelo que também podia ser medo.
A única luz na cela provinha da vela que Igor segurava:

- Igor, é esta noite.
- Ããh.
- Esta noite, Jessica será minha.
- Ãããhhh.
- É ela a escolhida, Igor. Será com ela que passarei a eternidade.
- Ãããh.
- Juntos aterrorizaremos esta terra e outras que existam, o Homem deixará de existir!
- Ãããh.
- Daremos à luz uma nova raça de imortais! Polvilharemos este mundo com a semente de Satanás, seremos reis e imperadores e a noite será eterna!
- Ãh.
- Preparaste o quarto, Igor?
- Ããh.
- Óptimo. Já lhe fizeste o caixão?
- Ããh.
- Não faz mal. Mas se não estiver acabado até hoje de madrugada, arranco-te esse dente inútil dessa boca podre com uma lambada, percebeste?
- Ããh.
- Ai, achas que não?
- Ããh.
- Pois, bem me quis parecer…
- Ããh.
- Ainda bem. E aproveita também para limpar o pó. Até já, não me demoro.


Drácula saiu a voar do seu castelo em direcção à aldeia. Igor observava-o de uma ameia, até o ver desaparecer na noite:

- Foda-se, nunca mais se ia embora! Sempre com o mesmo ronhónhó, o filho da puta…

E entrou no castelo a falar sozinho, em direcção às suas obrigações.

Não vos envio por e-mail.
Opto por deixar aqui a minha homenagem.

Começo com este amigo palhaço. Telefonou-me hoje para saber como eu estava. Tinha perguntado por ele à Esposa. Já não é de agora que ele me faz falta.

Ainda me lembro de quando me entrevistou. De quando ligou para a minha casa e a minha mãe atendeu o telefone. Ela disse: "Está aqui o Sr. X ao telefone, é para ti!"
O único problema é que pronunciou o nome do Sr. X na variante do plural; como falou alto, fiquei logo convencido de que não ia correr bem.

Apesar disso, ouvi do outro lado da linha: "Bem-Vindo à equipa."

Se soubesse o que sei hoje, tinha ido lá dar-lhe um pontapé no cú e vinha-me embora.
Mas a ironia é que sei o que sei hoje e cresci como homem, porque admirava-o. Queria ter a força e a capacidade de ser como o meu amigo palhaço. Queria mostrar-lhe constantemente como estava a aprender com ele.

Nessa altura fiquei com a impressão de que, se ele soubesse na altura da entrevista o que veio a descobrir mais tarde, tinha-me dito "Bem-vindo à equipa" só para ter a oportunidade de me dar um pontapé no cú.

Hoje o meu amigo palhaço ligou-me. Faz-me falta. Não consegui dizer-lhe nada de jeito.

Amigo palhaço, espero ver-te em breve, quero falar de coisas sem importância contigo.
Deixa-me só sossegar-te:

Não, não é paneleiragem!



Este parvo de há muito tempo foi-se. Não convivi muito tempo contigo. Pelo menos tanto quanto queria. Como é possível simpatizar tanto com uma pessoa com quem pouco se convive?

Simples. Basta um pouco de tempo para se perceber que estamos a falar com um gajo que vem, no mínimo, do Planeta Agostini.
Soube de pessoas que falaram contigo durante 15 minutos seguidos e tiveram um esgotamento cerebral, mas esse esgotamento é mais parecido com uma ressaca de whisky; a cabeça dói, mas a pedra foi das boas.

Parvo de há muito tempo, já me fazes falta.


O meu grande amigo camelo? Deixou-me.
Merece um pontapé no cú como o outro, foi ele quem mo apresentou.
Nunca conheci criatura tão idiota e boçal na minha vida. Porra, isto vindo de um gajo idiota e boçal como eu. Este otário com nome de insecto supera-me.
Deixou-me sozinho e fiquei sem ninguém para insultar.
Foste-te embora, meu cabrão? Deus escreve direito por linhas tortas, toma lá um gajo com dentes postiços, cara de parvo e nome de apartamento no Seixal para o caminho. Ah Ah!
Faz-te manager dele e apresenta-o como o Mick Jagger português, ganhas uma pipa de massa.

Foda-se, até esse me faz falta. Merda.

Falta-me falar do gajo que parece uma sueca sexagenária. Também se foi embora. Honra lhe seja feita, deve ser a sueca sexagenária que engatou mais suecas adolescentes em todo o mundo.

Foda-se.


Bem, agora vou-me embora.

Estou a sentir um formigueiro estranho e tenho urgentemente de vestir a camisola do Benfica, palitar os dentes, coçar os colhões em público e dar porrada na mulher.



Merda, vocês fazem-me falta.

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