O Parvo do Batman

Era noite cerrada.

Ao volante do seu Batmobile, o Batman perseguia o Joker a alta velocidade. A estrada era sinuosa, curva-contra-curva ; quem conhece a estrada de Vila Pouca de Aguiar para Vidago sabe do que estou a falar.

A cada curva no limite, Robin agarrava-se cada vez com mais força ao banco do batmobile.



Era a noite de 9 de agosto, dia de festa na Vila Meã. Roberto Leal acabava mais um concerto de verão, com o público em apoteose.

Mais tarde, com toda a equipa do cantor dentro do autocarro de digressão, Roberto Leal decidiu ir a pé até à pensão; a noite estava muito agradável, e não lhe apetecia ir de imediato para cama.

Mais tarde descobriu tratar-se de uma infeliz decisão.



O Joker tinha desenvolvido um protótipo de automóvel que fosse capaz de ser mais rápido que o Batmobile. Tal projecto revelava-se útil, pois o Batman perdia o Joker de vista cada vez mais.

Perto da curva da fonte, o carro do joker passa a uma velocidade incrível pelo Roberto Leal ; este num instintivo acto infeliz, deu dois passos para dentro da estrada para conseguir um relance que fosse daquele bólide. O espanto foi tanto que falou sozinho:



- Pô , esse cárro ânda prá cará...



Não conseguiu acabar a frase antes de o Batmobile atingi-lo. Antes de caír redondo e em peso no chão, elevou-se pelo menos a 15 metros de altura.



Batman travou a fundo. Rapidamente caíu em si e olhou pelo retrovisor.



- Robin, acho que atropelei alguém .



- De certeza ? Só vi uma mancha branca, não seria um saco ou outra coisa qualquer ?



- Não, quase de certeza era uma pessoa.



- Vou lá ver.



Robin saíu do carro e dirigiu-se ao local onde estava inanimado o Roberto Leal. Robin debruçou-se para lhe sentir a pulsação. Não pôde deixar de reparar no crucifixo ao pescoço do acidentado e na Bíblia meio saída do bolso.



- BAAATMAAAANN !



O Batman saíu do carro de encontro a Robin , encontraram-se a meio do caminho num passo apressado.



- Diz , Robin !



- Batman , eu ...



- Vá desembucha .



- Acho que atropelaste o Papa!



- O PAPA ??!? Mas que ideia mais estapafúrdia !! Que raio estaria o Papa a fazer nesta estrada à noite ? Onde é que tens a cabeça ?



- Olha, para começar, conheces muitos homens que se vistam de branco, com crucifixos ao pescoço e bíblias no bolso ?



- Por acaso não, mas duvido que o Papa seja o único homem no mundo com esses atributos.



Roberto jazia na estrada.



- Pois , o Sr. Batman tem sempre razão, o Sr. Batman nunca se engana.



- Robin, puto, não comeces com isso. Lembra-te que ainda no outro dia o quadro eléctrico da batcaverna disparou, e a primeira coisa que disseste foi “ reparaste como anoiteceu num instante?”



Roberto jazia na estrada



- ISSO NÃO É JUSTO ! TINHA ACABADO DE FAZER 13 ANOS.



- Pois foi, anteontem ...



- E DEPOIS ? Como se tu nunca te tivesses enganado!! Dizias-me isso no meu quarto há uns anos, quando lá aparecias todo nú ! A nossa sorte era acenderes as velas. Só nunca percebi para que servia a garrafa de vinho, agora que falo disto...



- Ahhh pois... esquece lá isso. Já te expliquei como é a verdadeira amizade entre homens crescidos, certo? Olha, vou mas é ver do homem , tá bem ?



Batman despachou-se em direcção ao Roberto Leal. Este começava a recuperar os sentidos. Debruçado, perguntou-lhe :



- O Senhor está bem ?



Roberto, combalido e com o maxilar partido respondeu-lhe o melhor que pôde, arrastando a voz:



- Nã..ãã..o.oo. Pee..lla.. gr..aça...di.....Deus.....No..xa.. Sra...Fátxima...



Batman levantou-se rapidamente e com os olhos arregalados fitou o infinito. Estava petrificado. A andar às arrecuas , rapidamente foi de encontro a Robin. A Falar entre dentes, disse-lhe :



- Robin, acho que tens razão. Atropelei o Papa.



- Nãããão !!! A séééério ???



- Oh Meu Deus ! Que vou fazer agora ? Atropelei o Sumo Pontífice!! Que tragédia , que horror !! Que... Que ... Que dirão os jornais de mim amanhã ?



- Calma Batman ! Vamos pensar no melhor a fazer , ok ? Com calma !



Roberto jazia na estrada.



Batman, com as mãos nas ancas, desesperadamente andava para cá e para lá, ocasionalmente levava as mãos à cabeça, esmurrava o tejadilho do Batmobile e pontapeava o pneu.



Roberto jazia na estrada.



Batman continuava:



- Que fazer ? Que vou fazer ? A minha reputação, nem quero pensar!



Nisto aproximou-se a grande velocidade um autocarro – era o do Roberto Leal-.

Os colegas procuravam-no, apreensivos por ainda não ter regressado.

Só tarde demais o condutor do autocarro viu o Batmobile preto. Desviou-se dele com uma guinada violenta, mas não conseguiu evitar passar por cima do cantor.



Batman logo aproveitou:



- Robin, vamos embora !! Estes gajos que fiquem com a culpa!!



E rasparam-se no Batmobile sem que ninguém conseguisse identificar o carro.





Meses depois, Bruce Wayne estava no escritório da sua mansão, tentando desenvolver um carro mais rápido que o do Joker. Albert , o mordomo , abriu a porta e disse :



- Está aqui um Sr. para vê-lo.



Pela porta entrou Roberto Leal, com algumas cicatrizes ainda visíveis. Albert deixou-os.

Bruce Wayne gelou. Ficou pálido que nem cera.



- Vossa eminência , faça favor de entrar ! Boa Noite, boa noite !



Aproximou-se de Roberto e beijou-lhe a mão. Tentava controlar os nervos. Continuou :



- Sua Santidade, faça favor de se sentar ! Que honra recebê-lo em minha humilde casa. Que fiz eu para merecer a vossa presença ?



Sem qualquer expressão, Roberto disse:



- Êu sêi qui foi você quém mi atrôpelôu, seu sácâna !



- Mas, mas, como assim , eu o quê ?



- Cômo ássim uma pôrra ! Bastou você abrir á bôca prá eu reconhecê você! Ágora venho áqui para lhe cobrar o que me fêz, seu êstropício.



- ...Ok, eu admito. Mas estou tão arrependido ! Mas sabe , na altura, no calor da situação, só pensei na minha reputação.... tenho pesadelos todas as noites desde então...



- Cále-se ! Já lhe disse que vim para cobrar di você ! E você vai pagar, senão sua rêputação vai pêlo cano , ouviu ?



- Certo, certo, qualquer coisa. Deixe-me passar-lhe um cheque , diga o valor por favor!



- Dinheiro ? Por quêm você me toma seu bábaca ?



- Claro, claro, que parvo eu sou... Ok, ok, então que posso fazer ? Talvez como Batman possa ...



- Cále-se ! Você vai pagar é ágora !



Roberto acendeu duas velas e abriu uma garrafa de vinho. Desligou o interruptor da luz e disse :



- Rêparou como anoiteceu num instante ?

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