Os Dentes do Vampiro - Parte V

V - Bom dia, Dona Francisca



Martim Sénior não criticou o filho pelo seu descuido. Compreendeu-o, aquilo era de mais até para ele, quanto mais para o seu filho mais novo.

- Estás bem, filho?

- Estou, pai, estou…

- Queres sentar-te? Eu trato do resto.

- Não, pai. Estou bem, a sério.

- Vá, deixa-me fechar o caixão. Recompõe-te, pronto.

A Dona Francisca tinha acordado mais cedo do que a irmã e a filha. Queria ser a primeira a chegar, queria ter uns últimos momentos sozinha junto do seu amado. Entrou chorosa na sala:

- Bom dia, Martim. Bom dia, Martim.

- Bom dia, Dona Francisca.
- Bom dia, Dona Francisca.

Martim e Martim entreolharam-se, os dois com os braços em cima da tampa do caixão.

- Ai, que desgraça que tinha de me acontecer.

Pai e filho voltaram a olhar um para o outro. Martim Sénior respondeu, tentando ser o mais natural possível:

- Pois é, Dona Francisca, o mundo é injusto.
- Sim, eu sei. – Respondeu, conformada. – Olhe, encontrei o padre Zé Tó na igreja, ele quer falar consigo sobre o funeral. Pode ir lá ter com ele?

Martim Sénior hesitou, mas não tinha como recusar. Olhou preocupadamente para o filho e respondeu:

- Com certeza, vou agora mesmo.

Antes de sair da sala, voltou a olhar para o filho e fez-lhe sinal para manter a tampa do caixão fechada.

A Dona Francisca dirigiu-se a Martim:



- Oh, meu filho, também estás triste, não estás?

- Estou sim, Dona Francisca. Muito triste.

- Estás tão pálido, meu querido. Sentes-te bem?

- Eu aguento-me, Dona Francisca.

- Oh, meu rico filho, és o homem certo para a minha filha.

- Sou sim, Dona Francisca.

- Gosto de ti desde que eras pequenote, eras tão querido.

- Era pois, Dona Francisca.

- O meu querido Fonseca também gostava muito de ti.

- Pois gostava, Dona Francisca.

- É a lei da vida, o mundo é dos jovens.

- Pois é dos jovens, Dona Francisca.


A cada frase, a Dona Francisca aproximava-se do caixão. Martim ficava cada vez mais nervoso:

- Ele ia gostar tanto de vos ver casar…

- Pois ia, Dona Francisca.

- Só falava dos netos que queria ter, do que lhes gostava de ensinar.

- Pois era, só falava dos netos, Dona Francisca.

- Estás mesmo bem, Martim?

- Claro que sim, Dona Francisca.

- Mas… já fecharam o caixão?

2 Comments:

  1. Anónimo said...
    Ri do principio ao fim...
    e estou curioso para ver, como é que o Martim se vai safar desta.
    e estou a imaginar a mãe do Sr. Galhão a chama-lo...
    - Anda cá Galhão... :)
    Enfim, estás no teu melhor nesta fascinante blogonovela, agora é só esperar a rabola dos Gatos Fedorentos... :)

    Abraços
    Anónimo said...
    Eh Eh! Obrigado pá.
    Olha que essa do anda cá galhão escapou-me, agora já não a posso usar... porra.

    Tás curioso? Também eu, my friend. Também eu...

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