VI - O padre Zé Tó
O padre Zé Tó nem sempre fora padre. Zé Tó era um pirata português cujo barco tinha sido afundado há 3 anos por um galeão de guerra ao largo da costa da Roménia. Foi um dos poucos sobreviventes do naufrágio e foi o único a conseguir fugir à perseguição em terra.
Perto da Transilvânia, viu uma carruagem acidentada que transportava o novo padre da aldeia. O padre Zbrimatovovivilicic; ele e o condutor estavam mortos, mas Zé Tó enterrou os corpos, escondeu a carruagem e apoderou-se das malas e dos documentos do padre.
Os habitantes nunca suspeitaram dele; sempre pensaram que o seu cabelo escuro, sujo e comprido, a barba por fazer, o bigode farfalhudo, a baliza nos dentes e a unha comprida no mindinho fossem sinais de modernice.
Optou contudo por deixar de usar o fio de ouro ao pescoço e a pulseira de prata cravejada de caveiras, pelo menos na missa.
Martim Sénior, apressado, encontrou Zé Tó à entrada da Igreja.
- Bom dia, padre Zbrimatovovivilicic.
- A paz esteja contigo, Martim, e trata-me por Zé Tó.
- Padre, não temos muito tempo. Venha comigo, rápido.
- Aonde?
- A casa do Dr. Fonseca. Lá explico tudo, mas venha agora.
- Mas que bicho te mordeu?
- Padre, é imperativo que venha, agora!
- Pronto, homem, vamos lá!
Quando Martim Sénior e Zé Tó entraram na sala do Dr. Fonseca, encontraram o caixão aberto, Martim Júnior sentado a chorar e a Dona Francisca esticada no chão, inanimada e com os olhos arregalados.
Martim Sénior agarrou vigorosamente os braços do filho:
- O que é que fizeste Martim?! O que é que fizeste?!
- Pai, não pude evitar! – Soluçou.
- Não pudeste evitar o quê?! O que fizeste?!
- Pai, a Dona Francisca quis ver o Dr. Fonseca…
- E deixaste-a vê-lo neste estado?
- Não, eu tentei evitar… mas ela forçou-me. Queria ver o Dr. Fonseca e queria ver o Dr. Fonseca, queria saber por que razão tínhamos fechado o caixão… Depois começou a gritar… Começou a ficar histérica e empurrou-me… Tentei segurá-la mas ela voltou a empurrar-me com tanta força que tropecei no tapete e caí… Quase que bati com a cabeça no rodapé da lareira…
O choro de Martim intensificou-se:
- Foi então que ela abriu o caixão e soltou um grito de terror!
- E teve um ataque?
- Não, deu dois passos atrás, tropeçou no tapete e bateu com a cabeça no rodapé da lareira!
- Minha nossa Senhora!
- Está morta, Pai! Morta!
- Meu Deus do Céu!
- Morreu!
- Virgem Santíssima!
- Foi-se, Pai! Foi-se!
- Santo Deus!
- Tropeçou, bateu com a cabeça…
- Cristo Santíssimo!
- … e ficou ali parada, a olhar para mim!
- Santa Maria!
Zé Tó assistia embasbacado à cena. Quando se aproximou do caixão e viu o cadáver decepado coberto de vómito, fechou os olhos e virou logo a cabeça para o lado, mas foi de mais para ele; não conseguiu conter-se e vomitou o pequeno-almoço por cima do cadáver da Dona Francisca.
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